O conflito
O sol de maio em Belém já castigava, mesmo na primeira hora da tarde, mas para mim, era um escudo, uma afirmação. Estávamos lado a lado, eu e aquele que fora meu pupilo, agora envolto em uma aura fria, distante. O "Três" o havia seduzido, uma força que eu mal compreendia em sua totalidade, mas cujos efeitos via nos olhos opacos do meu antigo amigo.
Lembro-me de quando éramos apenas "Dois", parceiros, aprendizes um do outro sob a luz equatorial. Compartilhávamos sonhos, ambições, uma compreensão tácita do mundo ao nosso redor. Mas algo mudou. Uma promessa de poder, talvez, ou uma visão distorcida da realidade o atraiu para a órbita do "Três". E, em sua jornada, ele levou consigo uma parte de mim, uma insegurança antiga que eu jamais soubera ter até vê-la refletida em sua nova postura.
Agora, estávamos ali, na praça banhada de sol, o calor úmido da Amazônia pairando sobre nós. Decidimos por uma quietude tensa, uma meditação de frente um para o outro. Nenhuma palavra trocada, apenas o zumbido distante da cidade e o bater do meu próprio coração. Eu buscava em sua face traços do "Dois" que conheci, mas via apenas o contorno endurecido pelo "Três".
Aguardei. Sabia que ele seria o primeiro a se mover, impaciente sob o peso da nova influência. Seus dedos crispados foram o prenúncio. Então, um deslocamento sutil em sua sombra no chão de paralelepípedos, uma extensão escura que parecia palpitar com uma energia estranha. Era ali.
Com a velocidade de um raio, movi-me. Não mirei nele, no corpo que um dia fora familiar, mas na sombra que se estendia, fria e densa. Senti um leve choque, como se atingisse uma superfície viscosa, e por um instante, uma onda de familiaridade percorreu meu ser – a insegurança antiga, agora liberada.
Ele cambaleou, um espasmo percorrendo seus ombros. Seus olhos se arregalaram, pela primeira vez em semanas parecendo realmente me ver. Havia confusão, dor, mas também um brilho tênue, como uma faísca acendendo na escuridão.
A batalha não havia terminado, eu sabia. A influência do "Três" era forte. Mas naquele breve instante de conexão, senti que a "parte de mim" havia retornado, e com ela, uma renovada esperança de que o "Dois" que fomos um dia ainda poderia ser resgatado das garras do "Três". A praça continuava ensolarada, mas agora, a sombra do meu amigo parecia um pouco menos densa, e a minha própria determinação, fortalecida pela luz do sol e pela recuperação de uma parte perdida de mim, ardia com uma intensidade renovada. A batalha seria longa, mas a promessa de reencontrar o "Dois" que havíamos perdido me impulsionava a continuar, eterno em minha persistência.
Comentários
Postar um comentário